A atividade filosófica como a conhecemos surgiu da necessidade, no mundo grego antigo, de um substrato comum de conceitos e valores que superasse os limites das tradições mitológicas. Essa necessidade deu-se devido a um ambiente cosmopolita, onde os cidadãos participavam diretamente das decisões políticas. Atualmente, as decisões de interesse coletivo são sutilmente impostas à sociedade, que por sua vez é desestimulada a refletir sobre a própria condição. Em tal ambiente, o pensamento crítico torna-se desfavorável e proliferam-se coaches, influencers, livros de autoajuda, populismos políticos de toda ordem, abusos da fé religiosa etc.
Neste cenário é fácil ver a necessidade social geral da Filosofia. Mas qual seria a necessidade social local de pensamento filosófico? Isto é, o quão é necessária a Filosofia em Mato Grosso do Sul? Que tal pensarmos em um MS Filo?
Para que haja, de fato, uma Filosofia Sul-Mato-Grossense e não apenas temas filosóficos em Mato Grosso do Sul, a Filosofia precisa ser um valor social capaz de compreender a identidade e representar aqueles que vivem nesse território, conter em si conceitos compreensíveis e promover a convivência democrática na Pólis.
A paisagem e população sul-mato-grossense é fortemente marcada pela “Marcha para Oeste”, projeto do Estado Novo que visava ocupar fronteiras, diminuir o poder do latifúndio no interior mediante reforma agrária e iniciar um projeto de modernização do transporte nacional por meio de ferrovias. Porém, a região das fronteiras estava ocupada por companhias agropecuárias estrangeiras que antagonizavam o projeto.
Assim, os recém chegados colonos (em sua maioria agricultores pobres), assentaram-se em territórios ainda não ocupados pelas companhias, preparando a terra e afastando indígenas. Os latifundiários aproveitaram-se da expansão da fronteira agrícola para perseguir e comprar as terras dos colonos. Getúlio Vargas dizia procurar o Brasil legítimo no interior e aproximar-se do indígena, seu projeto foi bem-sucedido, mostrou o Brasil real: a negação do indígena e o antagonismo entre o agricultor pobre e o latifúndio.
Desde seu nascimento, o maior dilema do estado de Mato Grosso do Sul envolve o território e essa questão toca diretamente a cultura sul-mato-grossense, que é rica e diversa, mas poderia ser muito mais se não rejeitasse o bugre, o indígena, ainda visto como “atrasado”. O papel da Filosofia em MS pode ser este: contribuir para a construção de um território, cuja cultura integre verdadeiramente o bugre, o indígena, com responsabilidade e ética. A partir da ampliação deste território, um novo horizonte pode surgir para o estado, servir de laboratório ou vislumbre de uma realidade possível, em que os dilemas a serem enfrentados digam mais a respeito da condição humana no cosmos do que a antagonismos decorrentes da reprodução material da vida.
É verdade que o florescimento da Filosofia na Grécia foi fruto de condições específicas que não estão presentes no território de MS, porém, diante da ânsia por sentido e da necessidade social experimentada por todos os cidadãos de uma “vida boa” (vida ética) na Pólis, a Filosofia se apresenta como uma alternativa cultural, política e científica para pensar e transformar o estado. Essa alternativa pode se desenvolver da mesma maneira que diferentes espécies de plantas nativas podem brotar de um solo fértil, como é o do Pantanal. Ela seria capaz de construir um ponto de vista compartilhado sobre a realidade e contribuir para a deliberação acerca de problemas regionais. Portanto, a Filosofia em Mato Grosso do Sul pode oferecer um horizonte de superação dos conflitos presentes neste território, criando um ambiente em que o pensamento filosófico seja necessário, permitindo que a real identidade MS possa emergir.
Ian do Cerrado é Filósofo prático em formação pela UFMS. E-mail: ian.yamaguchi@ufms.br.
Weiny César Freitas Pinto é Bolsista Produtividade Fundect/CNPq. Professor do curso de Filosofia e dos Mestrados em Filosofia e Psicologia da UFMS. E-mail: weiny.freitas@ufms.br.
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS
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