Economista vê risco de custos da expansão da rede serem divididos entre consumidores
Os custos da infraestrutura elétrica necessária para atender os data centers podem ser divididos entre os consumidores de energia. Em entrevista ao jornal O Estado, o mestre em Economia Eugênio Pavão, pontua que a disputa pelos investimentos do setor repete a lógica da guerra fiscal, com empresas recebendo vantagens para se instalar e parte da estrutura necessária sendo paga pela sociedade.
A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) calcula que a carga média dos data centers no Brasil passe de 304 MW em 2026 para 3.457 MW em 2030. O volume será mais de 11 vezes maior. Para atender essa demanda, alguns empreendimentos podem exigir reforços em linhas de transmissão e subestações.
“Essa disputa pelos investimentos bilionários da expansão do setor se assemelha à guerra fiscal que os Estados faziam para atrair empresas, isentando-as de ICMS, doando terrenos”, explica Eugênio.
Segundo o economista, além dos incentivos oferecidos para atrair empresas, os governos precisam considerar o custo da infraestrutura necessária para receber grandes cargas de energia. “O valor dessa nova indústria deverá ser ‘socializado’ pela sociedade, como ocorreu em diversos momentos da economia brasileira.”
Custo da rede
Levantamento do Intercept Brasil e da Mongabay identificou 68 pedidos de conexão de data centers à rede básica de energia em 37 municípios brasileiros até dezembro de 2025.
A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) informou ao Intercept que os reforços e ampliações necessários na Rede Básica, além do ponto de conexão, têm custos rateados entre os usuários do sistema. A agência afirmou que não havia identificado, até então, um problema de rateio provocado especificamente por data centers.
A possibilidade de compartilhamento dos custos foi apontada por Enel e EDP em contribuições enviadas à Aneel. As empresas afirmaram que a conexão de grandes consumidores pode exigir reforços e ampliações na rede de transmissão.
A EDP citou data centers, projetos de hidrogênio verde e outras cargas eletrointensivas entre os empreendimentos que podem exigir ampliações da rede. Para Eugênio, esse modelo pode transferir para pessoas que não participam diretamente da atividade os custos relacionados à expansão. “Os custos são assumidos para cidadãos comuns.”
O economista cita como exemplos históricos a Petrobras e o Proer, programa criado para socorrer instituições financeiras durante a crise bancária dos anos 1990. Para ele, os casos mostram situações em que custos de determinados setores acabaram distribuídos pela sociedade.
“A conta de luz é o setor mais utilizado para arrecadação de diversas modalidades estranhas à energia elétrica. Um histórico recorrente no Brasil: socializar setores com apoio dos contribuintes.”
Energia mais barata
Grandes consumidores podem operar no mercado livre de energia e negociar contratos diretamente com geradores. Dados da Abraceel (Associação Brasileira de Comercializadores de Energia), citados pelo Intercept, mostram que a energia contratada nesse mercado custou, em média, R$ 147 por MWh em 2024.
No mercado regulado, a tarifa média chegou a R$ 310 por MWh. A diferença foi de R$ 163 por MWh. Os consumidores residenciais não têm acesso às mesmas condições de contratação dos grandes consumidores.
Carga de 3.457 MW
Na primeira revisão quadrimestral do Plano Anual de Operação 2026-2030, a EPE registrou 22 contratos assinados e 18 pedidos de acesso favoráveis para cargas de data centers. Há ainda 50 pedidos de acesso em análise.
Os projetos considerados no planejamento estão nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Sul. A carga média prevista para 2030 é de 3.457 MW, contra 304 MW em 2026.
Para Eugênio, é preciso definir quem pagará pelos investimentos necessários para atender os novos consumidores. “Para atrair o setor, é necessário aprimorar a infraestrutura elétrica, com a incorporação de fontes alternativas de energias, solar, eólica etc., para não impactar as tarifas dos médios e pequenos consumidores.”
Segundo ele, a criação de encargos específicos para data centers está em discussão no Congresso Nacional e na Aneel.
Em Mato Grosso do Sul, o Tribunal de Justiça já prevê investimento de até R$ 24 milhões em estrutura para aplicações de inteligência artificial.
O TJMS publicou ata de registro de preços para aquisição e implantação de servidores, switches, cordões ópticos e PDUs verticais. A empresa selecionada foi a Click TI Tecnologia, com sede em Campo Grande.
Entre os projetos do tribunal estão ferramentas para transcrição de audiências, assistente virtual, identificação de medicamentos citados em processos, geração de resumos, produção de ementas e decisões entre outros.
A ata não obriga o tribunal a gastar os R$ 24 milhões. O instrumento registra preços para eventuais compras, conforme a necessidade do órgão.
A reportagem procurou a Energisa, responsável pela distribuição de energia no Estado, para saber se há pedidos de conexão, projetos de data centers, grandes cargas ou obras previstas para atender esse tipo de empreendimento no Estado. Até o fechamento desta edição, a Energisa não havia respondido.
Por Djeneffer Cordoba