Polícia encerra caso Ayla e descarta venda ou tráfico; bebê volta para casa após uma semana

Delegada Anne Karine Sanches Trevisam Duarte - Foto: Cayo Cruz
Delegada Anne Karine Sanches Trevisam Duarte - Foto: Cayo Cruz

A Polícia Civil concluiu que o sequestro da bebê Ayla Emanuelly foi planejado antes mesmo do nascimento da criança e descartou as hipóteses de venda, doação ou tráfico. Segundo a investigação, a mulher apontada como autora do crime, Suzilaine da Graça Costa, fingiu estar grávida e se aproximou da mãe da recém-nascida durante a gestação para colocar em prática o plano de ficar com a menina.

A investigação foi detalhada em entrevista coletiva nesta sexta-feira (14), uma semana depois do desaparecimento da bebê. Ayla foi encontrada na madrugada de domingo (9), em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, após mais de 48 horas de buscas. Ela estava com Suzilaine e o marido dela, Alex Melo de Abreu, que foram presos.

De acordo com a delegada Anne Karine Sanches Trevisam Duarte, da Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), Suzilaine sustentava para familiares a falsa gravidez e chegou a afirmar que havia passado por uma curetagem na Santa Casa. A polícia acredita que ela nunca esteve grávida.

“Ela realmente planejou esse sequestro porque tinha o intuito de ter uma filha”, explicou a delegada. Conforme a investigação, Suzilaine procurou outras gestantes que dariam à luz no mesmo período que a mãe de Ayla, mas tinha preferência por uma menina.

A aproximação aconteceu em grupos de WhatsApp voltados à compra, venda e doação de enxovais. A mãe de Ayla, então com 17 anos, buscava roupas e outros itens para a filha que estava para nascer. Suzilaine passou a conversar com ela e, aos poucos, conquistou sua confiança.

Depois que Ayla nasceu, a suspeita teria oferecido um ensaio fotográfico como uma das formas de manter a aproximação. No dia 6 de agosto, a adolescente foi atraída para um imóvel com a promessa de receber R$ 100 para cuidar de outra criança.

A jovem levou a filha e estava acompanhada da irmã, de 12 anos. Segundo o relato apresentado à polícia, as duas foram rendidas no local e separadas da bebê. A mãe afirmou que recebeu água da suspeita e que foi dopada. Ela também contou ter sido ameaçada para entregar Ayla e ouviu que ela e a irmã seriam “jogadas em um buraco” caso resistissem.

A irmã teria adormecido após beber a água e só acordou por volta das 20h. A mãe, segundo o depoimento, permaneceu acordada. Para a Polícia Civil, o episódio não foi uma ação improvisada. O plano teria sido preparado durante meses, ainda na gestação da adolescente, e executado somente depois do nascimento de Ayla.

Fuga para o Paraguai

Foto: divulgação

Após retirar a bebê do imóvel, Suzilaine fugiu para Pedro Juan Caballero com a criança. Segundo a investigação, ela e Alex pretendiam permanecer no Paraguai.

O casal foi localizado em uma residência no município paraguaio, na madrugada de domingo (9), e preso. O rastreamento de celulares e o cruzamento de informações ajudaram os investigadores a identificar a fuga e chegar ao endereço onde Ayla estava.

A operação contou com a participação de forças de segurança brasileiras e paraguaias por meio do Comando Bipartite, além de agentes da unidade antissequestro do Paraguai.

O desaparecimento de Ayla também levou ao primeiro acionamento do Amber Alert Brasil em Mato Grosso do Sul, mecanismo utilizado para ampliar a divulgação de casos envolvendo crianças e adolescentes desaparecidos em situação de risco.

Além de Suzilaine e Alex, um terceiro homem foi preso em Campo Grande e indiciado por envolvimento no crime. Conforme a polícia, ele teria alugado o imóvel utilizado para manter a mãe da bebê.

Casal estava com a criança em Pedro Juan Caballero, no Paraguai – Foto: reprodução

Alex também era procurado pela Justiça do Amazonas. Ele possui condenação a 11 anos e seis meses de prisão, em regime fechado, por homicídio e, segundo as autoridades paraguaias, utilizava uma identidade falsa.

Polícia descarta venda da bebê

Com o avanço das investigações, a Polícia Civil descartou a possibilidade de Ayla ter sido sequestrada para venda, doação ou tráfico. A principal conclusão é de que Suzilaine pretendia criar a recém-nascida como se fosse sua própria filha.

A falsa gravidez mantida pela suspeita durante meses foi um dos elementos que reforçaram essa linha de investigação. Os três suspeitos foram presos e indiciados pelo envolvimento no sequestro.

Ayla volta para casa

Depois de passar uma semana longe da família, Ayla voltou para casa na quinta-feira (13), após uma avaliação psicossocial e autorização da Justiça. A bebê foi recebida por bisavós, avós, tias e outros familiares.

Quando a reportagem do jornal O Estado esteve na residência, Ayla estava tranquila e dormia. Ela acordou apenas para mamar e voltou a dormir em seguida. A mãe, de 17 anos, falou sobre a emoção de finalmente ter a filha novamente nos braços.

Foto: Maria Gabriela Arcanjo

“Foi um momento de alegria, né? Eu estava ansiosamente esperando minha filha chegar e é muita, muita felicidade para mim. Muita alegria porque ela foi um presente de Deus na minha vida”, afirmou.

A adolescente disse que, mesmo durante os dias de angústia, acreditava que Ayla seria encontrada.

“Eu sabia que os policiais iriam fazer o trabalho deles e achar ela. E Deus também estava confortando meu coração. Eu já estava com muita saudade dela”, contou.

O período longe da filha, porém, deixou marcas. A mãe relatou que quase não conseguia comer, beber ou dormir e disse ter desenvolvido medo do escuro depois de permanecer em cativeiro.

“Foi muito triste. Muito angustiante. A família inteira estava só chorando. Eu queria ter logo ela nos meus braços, ver ela. Eu não comia, nem bebia direito e nem dormia. Com medo também, porque eu peguei trauma do escuro, né? Porque eu fiquei lá no escuro. Mas agora acabou. Agora é só alegria”, relatou.

Com a filha de volta, a adolescente agora espera que os responsáveis pelo crime sejam responsabilizados.

“Quero justiça. Justiça porque o que fizeram com a minha filha foi um roubo, um sequestro”, afirmou.

Ela também deixou um alerta para outras famílias e pediu atenção redobrada diante de ofertas feitas por desconhecidos nas redes sociais.

“Eu quero avisar para as pessoas terem mais cuidado com seus filhos, para ficarem mais atentos e não cair nesses golpes”, disse.

 

Com informações das repórteres Brenda Leitte e Maria Gabriela Arcanjo

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