Fotoreportagem: Marcos Maluf
Nem toda sirene anuncia um final feliz.
Há chamados que mobilizam equipes inteiras: enfermeiros, técnicos, socorristas e bombeiros. Todos chegam movidos pela mesma esperança: encontrar tempo onde ele parece já ter acabado.
Naquele dia, o chamado era uma criança.
Durante minutos que pareceram horas, ninguém economizou esforço. Cada compressão, cada ventilação, cada procedimento e cada decisão.
Tudo foi feito.
Porque desistir nunca faz parte do protocolo.
Na urgência, os profissionais aprendem a controlar a própria emoção.
A técnica precisa falar mais alto que o medo.

Cada segundo era precioso e qualquer tentativa era uma esperança inestimável. Foto: Marcos Maluf
Enquanto existe qualquer possibilidade, não há espaço para lágrimas.
Existe apenas trabalho.
Existe apenas esperança.

O laudo da ocorrência acompanhado de muita tristeza afundada em lágrimas: Foto: Marcos Maluf
Mas nem toda batalha pode ser vencida.
Existe um momento em que o silêncio ocupa o lugar das ordens.
Os equipamentos deixam de apitar.
As mãos param.
E ninguém precisa dizer o que aconteceu.
Todos compreendem.

Momento em que os profissionais começam a se abraçar. Na minha visão era como se cada um prestasse atendimento ao colega. Foto: Marcos Maluf
É somente depois que a ocorrência termina que a armadura começa a cair.
Os mesmos profissionais que, minutos antes, conduziam procedimentos com precisão, agora dividem o peso daquilo que viveram.
Abraçam-se.
Choram.
Permanecem em silêncio.
Não porque lhes faltou preparo.
Mas porque nunca lhes faltou humanidade.

Eu observava, como era pesado o fardo que cada profissional carregava ao deixar o local, era como se o mundo tivesse desabado. Foto: Marcos Maluf
Existe uma ideia equivocada de que quem trabalha salvando vidas se acostuma com a dor.
Não se acostuma.
Aprende apenas a continuar, mesmo carregando lembranças que dificilmente serão esquecidas.
Cada ocorrência deixa marcas.
Algumas aparecem no corpo dos pacientes.
Outras permanecem invisíveis, guardadas na memória de quem esteve ali tentando mudar o desfecho daquela história.

Os brinquedos já não tinham mais vida. Foto: Marcos Maluf
Os brinquedos continuam ali.
Silenciosos.
Eles lembram que existia uma infância.
Uma família.
Uma vida inteira de sonhos interrompida cedo demais.
Para a equipe, porém, eles também representam outra lembrança:
a de que fizeram tudo o que era possível.
Porque cuidar não significa apenas salvar.
Às vezes, cuidar significa permanecer até o último instante.
E encontrar forças para atender o próximo chamado, mesmo levando consigo um pedaço de todos aqueles que não puderam voltar para casa.
É esse o preço de cuidar.
Quando a tentativa de salvar uma vida chega ao fim, o que permanece não é apenas o silêncio da cena, mas também o peso carregado por quem esteve lutando até o último segundo. Para o Cofen (Conselho Federal de Enfermagem), essas reações revelam uma dimensão da profissão que raramente aparece nos protocolos, mas faz parte da rotina de quem atua na linha de frente.
“Essas imagens revelam, acima de tudo, a dimensão humana da enfermagem. O profissional de enfermagem é preparado técnica e cientificamente para atuar nas situações mais críticas, mas isso não significa ausência de emoções. Chorar após um atendimento complexo ou abraçar um colega ao final de uma ocorrência demonstra empatia, compromisso com a vida e capacidade de elaborar experiências extremamente intensas. Do ponto de vista do Cofen, essas manifestações não representam fragilidade. Elas evidenciam a enorme carga emocional enfrentada diariamente por quem dedica sua carreira ao cuidado de pessoas em situações de extremo sofrimento”, destaca o Conselho.
Esta fotoreportagem encerra uma série que percorreu os bastidores da enfermagem de Campo Grande-MS. Confira o Capítulo I (clicando aqui) e o Capítulo II (clicando aqui), nos quais, imagens e relatos revelaram cenários onde o cuidado se manifestou de formas distintas, mas com o mesmo propósito: preservar vidas.
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